Samba em Sampa

# Instalado há onze anos no Renascença Clube, nas operosas segundas feiras, a roda “Samba do Trabalhador”, comandada pelo compositor e cantor carioca Moacyr Luz ganhou ressonância até internacional. Agora invade o antigo “tumulo” do gênero, a Paulicéia, no DVD “Moacyr Luz & Samba do Trabalhador ao vivo no bar Pirajá” (Universal/Canal Brasil). Reduto carioca na megalópole, o “pé limpo” acolheu a roda e seus convidados. Eles cantaram de pé, microfone na mão, à frente de mesas apinhadas, que entoaram coros e batuques. Compareceram, Zeca Pagodinho (“Verdade”, “Vida da minha vida”), Teresa Cristina (“Anjo da Velha Guarda”), Leila Pinheiro (“Verde”, “Saudades da Guanabara”) e os músicos Rildo Hora, solos de gaita em “Beija-me” e “Cabô, meu pai” e Ricardo Silveira, guitarra rendilhando “Consolação” e “Mandingueiro”. O DVD, um dos últimos trabalhos do diretor Darcy Burger, funciona como um songbook de Moacyr Luz, autor e protagonista da maior parte do repertório. Além de algumas supra citadas, rolam “A reza do samba” (com Gusttavo Clarão), “Meu canto é pra valer” (com Moyséis Marques), “Vai que vai” (com João Martins), “Pra que pedir perdão?” (com Aldir Blanc), “Som de prata” (com Paulo Cesar Pinheiro), “Zuela de Oxum” (com Martinho da Vila) e ainda o acendrado “Que batuque é esse?” (com Sereno) e “Estranhou o que? (negro também pode ter o mesmo que você)”, manifesto do solista, de letra desafiadora. A roda de samba ainda tem outros solistas vocais, os cavaquinistas Gabriel Cavalcanti e Alexandre Marmita e os percussionistas Nego Álvaro e Mingo Silva.

 

# Montado para percorrer um circuito internacional de embaixadas brasileiras em homenagem ao centenário do poeta e diplomata Vinicius de Moraes, o espetáculo “Sem mais adeus”, de Olivia e Francis Hime, desembarca em CD pela Biscoito Fino. O casal foi muito amigo e próximo do homenageado, um dos incentivadores do talento do pianista Francis. Eles são parceiros na faixa título, e em “Anoiteceu”, “Saudade de amar” e “Samba de Maria”, com participação de Adriana Calcanhotto, que também entra em “Um sequestrador”, póstuma do poetinha, que ela assina junto com a dupla. O roteiro desfila em suítes: “Eu sempre peço ao Francis que organize meus discos desta forma, porque são canções que se seguem contando uma história”, define Olívia. Além de desfiar lembranças, ela interpreta o “Monólogo” de “Orfeu da Conceição”, de Vinicius, emoldurada ao piano do marido por “Minha desventura”. A música é parceria de Vinicius e Carlos Lyra, de outra peça da mesma dupla, “Pobre menina rica”, cujo tema também está no roteiro, junto com “Primavera”, “Coisa mais linda” e a obscura e bela “Valsa dueto”. Na voz de Olivia, piano e voz de Francis, deslizam ainda parcerias de Vinicius com Tom Jobim (“O grande amor”, “A felicidade”, “Se todos fossem iguais a você”, “Eu sei que vou te amar”, “Insensatez”, “Água de beber”, “Eu não existo sem você”, “Chega de saudade”), Baden Powell (“Canto de Ossanha”, “Berimbau”, “Labareda”) a homenagem de Toquinho e Chico Buarque (“Samba pra Vinicius”), composições solitárias do poeta (“Valsa de Eurídice”, “Pela luz dos olhos teus”, “Serenata do adeus”) e até uma favorita de Vinicius do cancioneiro americano, “Nature boy” (Eden Ahbez).

 

# Biólogo com mestrado, Vidal Assis tinha 16 anos quando encantou-se pelo samba “Peito vazio”, de Elton Medeiros e Cartola. Hoje, aos 31, cursou a Escola Portátil de Música, onde conheceu Hermínio Bello de Carvalho, que se tornou seu parceiro, assim como o ídolo Elton. O CD “Álbum de retratos” (Independente) na faixa “Nem sempre, nem jamais”, assinada pelo trio autoral, tem a voz de Elton, raridade desde que o genial compositor perdeu a visão e tornou-se recluso em casa. Hermínio reina no matreiro sincopado “Baderna da Glória”, onde declama o poema central, que exalta sua desvelada Clementina de Jesus. Zélia Duncan é quem dueta com Vidal em “Algas” (“botando reparos nas pernas da moça/ menino empinou a pandorga no ar/ rolaram na areia, oi”). Áurea Martins derrama seu lirismo em “Queira Deus” (“De joelhos, prometo, eu não vou te implorar/ mas deixa estar, essa sofreguidão ainda vai terminar”). Poliglota em MPB, capaz de compor de afoxé e baião ao samba, partido, capoeira e toada, o talentoso Vidal estréia com o frescor de novato e a caligrafia de veterano ainda em outras parcerias com Hermíneo como “Ao revés”, “Engano seu”, “Com o diabo no corpo”, “Tribeira”, “Bola no Bola”. No acompanhamento, um pequeno grupo afiado, onde pontificam Lucas Porto (violões, arranjos), Bernardo Diniz (cavaquinho), Gabriel Geszti (teclados, piano), Pedro Aune (baixo), Aline Gonçalves, Denize Rodrigues (sopros), Antonio Neves (bateria) Marcus Thadeu e Magno Julio (percussões).

 

# Doutor em geologia, Fernando Pellon é um dos menos conhecidos originais da MPB. Talento classificado como “extraordinário” por Aldir Blanc, ele chega ao terceiro disco, “Moribundas vontades” (Independente), sob arranjos e direção musical do craque Jayme Vignoli, gravado no estúdio Tenda da Raposa, no verão de 2016. Devoto do poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914), avesso à arte sanitizada, Pellon causou impacto logo na estréia, no disco “Cadáver pega fogo durante o velório”, em 1983. Depois, disparou “Aço frio de um punhal”, em 2010. A faixa título do lançamento atual, que evoca “A obsessão do sangue”, de Augusto, tinha sido gravada no primeiro disco sob o título “Com todas as letras” e foi vetada pela ditadura. A liberação só ocorreu num longo processo de oito meses no Conselho Superior de Censura, com interferência do pesquisador Ricardo Cravo Albin. Cantada por Marcos Sacramento, ela barbariza: “blasfemando contra a vontade de Deus/ contra a pátria/ e a propriedade/ a agonia de um suicida/ é a mais fiel expressão da liberdade”.  As diatribes, sempre certeiras, podem vir até de textos bíblicos como “Samba de São Tiago (Tiago, 5-1,6)” : juntaste em vida um tesouro de ira e hipocrisia/ que deporá contra vós no juízo do último dia”. Em “Ronda carioca” (com Paulinho Lêmos), na voz inquieta de Fátima Guedes, testemunha: “Hordas incontroláveis/ marginais dizimados/ a queda surda de corpos ao acaso/ policiais equipados/ o poder judiciário/ sentenças executadas com as próprias mãos”. Num compasso alterado, cinzelado pelo clarinete de Rui Alvim, “Sangue venoso” radiografa mazelas da cidade: “Endereço: Rua Senhor dos Passos/ um cheiro de mofo/ infiltrações antigas vão do piso ao forro/ paredes manchadas/ por tecidos necrosados e grandes varizes”. Cristina Buarque singra “Noites desnúpcias”, Alice Passos, a submissa “De forma insuspeita”, e Rose Maia revisita o mítico cordel “Elzira, a morta virgem” (outra com Lêmos). O CD fecha no “Mantra de samba”, em que Pellon musicou o ídolo Augusto dos Anjos: “Melancolia, estende-me a tua asa!/ é a árvore em que devo reclinar-me/ se algum dia o prazer vier procurar-me/ dize a este monstro que fugi de casa”.

 

# Virtuose do violão, excepcional compositor, Guinga desafia-se em “Canção da impermanência”, mais um disco gravado para o selo alemão Acoustic Music (o primeiro foi “Roendopinho”, em 2014), só com músicas inéditas, que ele lança nos próximos dias 25 e 26, no SESC Santana, em São Paulo. Com exceção de “Doido de Deus”, letrada por Thiago Amud, mas no disco apenas em versão instrumental, todas as 13 faixas são apenas de Guinga, que as apresenta só ao violão quase sempre cantarolando ou assoviando. No caso da homenagem a Caymmi, “São Dorival”, ele emula os melismas que identificam várias gravações do baiano-mór. Outros celebrados no disco são o violonista Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto (“Despedida do Garoto”, um choro meditado lento, em modulações leves), e, em perfis menos evidentes, o precursor Ernesto Nazareth (“Domingo de Nazareth”), a dupla autoral da bossa, em sua feição mais camerística, “Tom e Vinicius”, Villa Lobos (“Trenzinho do Corcovado”), Carlitos (“Chapliniana”) e sua escola auditiva, “Rádio Nacional” (com direito a prefixo).    

 

# E por falar no instrumento, o projeto Super Violão Mashup fecha nesta sexta e sábado no Oi Futuro de Ipanema, com apresentações de Gui Amabis e Marcelo Cabral e Luisão Pereira e Lívia Nery. A proposta da série é “desnudar a canção e remontá-la ao vivo, através de processamentos múltiplos de voz e violão”.

 

#  O gaúcho de Pelotas, Victor Ramil, que formatou a “estética do frio”, prepara seu 11º. disco, o primeiro a ser gravado em Porto Alegre e o primeiro com inéditas em sete anos, “Campos neutrais”. Como ocorreu no álbum duplo “Foi no mês que vem”, ele vai recorrer ao sistema de financiamento coletivo, e terá um songbook com afinações, melodias, acordes, diagramas, tablaturas, letras, além de textos e fotos. Com 15 faixas, o álbum com milongas e canções virá em três idiomas (português, espanhol, inglês). Há parcerias de Ramil com Chico Cesar, Zeca Baleiro, Joãozinho Gomes, de Belém, PA, Angélica Freitas, poeta de Pelotas, ele musicou o poeta luso Antônio Boto, cantará um clássico do Prêmio Nobel, Bob Dylan, e uma versão para o galego Xöel Lopez. O engenheiro de som Moogie Canazio, importado dos EUA, comandará as gravações no estúdio Áudio Porto, na capital gaúcha, reunindo desde o naipe de metais do Quinteto de Porto Alegre à guitarra de Felipe Zancanaro (Apanhador Só) e violão do argentino Carlos Moscardini. Os detalhes da campanha para realização do disco e do songbook estão no site www.tragaseushow.com.br

 

# Com a pausa por tempo indeterminado da banda brasiliense Móveis Coloniais de Acaju, após 18 anos de carreira, seu saxofonista Esdras Nogueira, à frente de um Quinteto, abre o baile do Almeidinha, promovido por Hamilton de Holanda, no Circo Voador, nesta quinta feira. Após dois discos solo (“Capivara”, 2014, uma homenagem a Hermeto Pascoal, e “Na Barriguda”, 2016), Esdras cai na estrada com shows seguintes marcados para Taguatinga (DF), Belém (PA), uma participação no estival Jazzahead!, em Bremen, Alemanha, outra no Festival Bananada de Goiânia (GO) e uma gravação de CD ao vivo, em Ceilândia (DF).

 

# Até 30 de abril, estão abertas as inscrições para o Samsung E-Festival Instrumental para artistas solo ou bandas com até cinco membros, que sejam maiores de 18 anos. O objetivo é revelar novos instrumentistas, que terão oportunidade de apresentar-se ao lado de um artista consagrado, com direito a gravação de um single com divulgação no encerramento do evento e ainda um prêmio de R$ 30 mil para alavancar a carreira. Inscrições e regulamento no site www.efestivalinstrumental.com.br.

 

# O disco “Silva canta Marisa” – em que o artista capixaba interpreta composições de Marisa Monte, incluindo a inédita “Noturna” - será mostrado dia 6 de abril no Vivo Rio. Dirigido por Marcus Preto, além do repertório do álbum, o show traz canções que Marisa interpretou ao longo da carreira como “De noite na cama” (Caetano Veloso) e “Que me importa” (popularizada por Tim Maia). Ao mesmo tempo está sendo lançado o clipe da gravação de Silva de “Beija eu”, direção de Jorge Bispo. A música é parceria dela com Arnaldo Antunes e Arto Lindsay, um dos convidados a beijos ecumênicos e ardentes na base de “toda forma de amor vale a pena”, ao lado das atrizes Maria Ribeiro, Amanda de Godói, dos atores Helio de La Peña e Francisco Vitti, da diretora Dani Gleiser e do cantor Matheus VK. Assista: https://youtu.be/vUra4lOgkmI.

# Os rappers Emicida e Rael associam-se aos colegas portugueses Capicua e Valete no álbum “Língua franca”, com repertório inédito. Ele celebra a língua comum entre os dois países e a primeira amostra do projeto – a faixa e vídeo clipe “Ela” - desembarca nas plataformas digitais nesta sexta feira, dia 31. Sai em maio, nos formatos físico e digital numa parceria do selo Laboratório Fantasma, de Emicida, com a Sony Music Brasil.

 

# Coadjuvado por gravações de pássaros selecionados, Fábio Caramuru leva seu projeto “Conversa de um piano com a fauna brasileira”, dia 8 de abril, ao Auditório Ibirapuera, em São Paulo.

 

# Também na capital paulista, no Teatro do Incêndio, na Bela Vista, acontece a série “Rodas de conversa – A gente submersa”, reunindo mestres da cultura popular e de comunidades tradicionais, desconhecidos do mercadão urbano. A parceria é com a Comissão Paulista de Folclore, que há 67 anos mapeia essas manifestações ligadas às raízes brasileiras. Iniciada em 7 de abril (com a Congada de Santa Ifigênia), a série, com entrada franca, vai até 10 de outubro. Próximos eventos musicais: dia 4 de abril, Catira, de Guarulhos, com palmeado, sapateado e viola, Samba de Umbigada, de Capivari (18/4), Fandango, de Iguape, bate mão, bate pé (2/5), Cururu, violas e Divino, de Lagoinha (30/5), Folia de Reis, de Atibaia (13/6), Jongo da Roseira, de Campinas (27/6), Reisado, de Guarujá (11/7), Congadas, de Olímpia e Taubaté (25/7).

 

por Tárik de Souza 



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